Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

Bolsa Escolar

 

 

Este é o maior excerto que cortei do Lua Nova; é a maior parte do capítulo 6 ("Declaração,"na altura), mais sete pequenos excertos que continuam a linha da história da "Bolsa Escolar" durante o todo o livro, até ao final. Eu pensei que era muito engraçado, mas os meus editores discordaram. Não era necessário, então foi sacrificado no altar da edição.

 

Cena Um: Dia a seguir, á ida ao cinema ver o filme "zombie" com a Jessica:

 

     Eu ainda sentia falta de Phoenix em raras ocasiões, quando provocada. Agora, por exemplo, enquanto me dirigia para o Banco Federal de Forks para depositar o meu ordenado. O que é que eu não daria pela existência uma caixa automática de depósito. Ou pelo menos o anonimato de um estranho, atrás do balcão.

     "Boa Tarde, Bella," a mãe da Jessica cumprimentou-me.

     "Olá, Sra. Stanley."

     "Foi tão simpático da tua parte teres conseguido sair com a Jessica, ontem á noite. Passou-se muito tempo." Ela fez um barulho com a sua língua para mim, sorrindo, fazendo soar um som amigável. Algo na minha expressão não estaria bem, porque, de repente, o sorriso dela ficou seco, e ela percorreu nervosamente, o cabelo com a mão, onde ficou parado por um minuto; o cabelo dela era tão ondulado como o de Jessica, e estava apanhado, exibindo pequenos caracóis.

       Sorri de volta, apercebendo-me que foi um bocado tarde de mais. O meu tempo de reacção estava enferrujado.

      "Sim," disse naquilo que esperava que fosse um tom sociável. "Tenho estado tão ocupada. Você sabe. Escola... Trabalho…" Confundi-me a pensar em outra coisa para adicionar á minha pequena lista, mas estava sem ideias.

      "Claro," ela sorriu mais docemente; provavelmente contente por a minha resposta soar a qualquer coisa normal e ajustada.

       De repente, ocorreu-me que me poderia estar a enganar me quando assumi que provavelmente era esse o motivo por detrás daquele sorriso. Quem sabe o que Jessica poderá lhe ter dito sobre a noite passada. Fosse o que fosse, não era totalmente mentira. Eu era filha da excêntrica ex-mulher do Charlie – insanidade pode ser genética. Antiga associada dos malucos desta cidade; deixei este pensamento rapidamente, estremecendo. Vitima recente de um coma andante, decidi que havia um bom argumento, em eu ser maluca, isto sem contar com as vozes que agora ouvia, e questionei-me se a Sra. Stanley, realmente pensava isso.

        Ela deve ter visto a especulação na minha cara e desviou o olhar muito rapidamente, para as janelas atrás de mim.

      "Trabalho," repeti, chamando a sua atenção enquanto punha o meu cheque no balcão. "Que é o que me trás aqui, claro."

      Ela sorriu de novo. O seu bâton estava a secar á medida que o dia passava, e era claro que ela tinha avolumado os lábios com ele, para parecerem maiores do que na realidade eram.

      "Como é que estão as coisas na loja do Newton?" ela perguntou alegremente.

      "Bem. A época está a chegar," disse automaticamente, apesar de ela passar pelo parque da Olympic Outfitter, todos os dias – ela teria visto carros desconhecidos. Ela própria deveria conhecer , as subidas e descidas do negocio do campismo, melhor que eu.

       Ela assentiu desinteressadamente enquanto olhava para o teclado em frente dela. Os meus olhos vaguearam pelo balcão castanho-escuro, com as suas linhas anos 70 de laranja brilhante a enfeitar os contornos. As paredes e o tapete foram alterados para um cinzento mais neutro, mas o balcão condizia com a decoração original do edifício.

       "Hmmm," murmurou a Sra. Stanley, num tom mais elevado que o normal. Olhei de volta para ela, pouco interessada, imaginando que estaria uma aranha na secretaria, que a teria assustado.

        Mas os seus olhos ainda estavam colados á frente do computador. Os seus dedos estavam parados agora, a sua expressão era de surpresa e de desconforto. Esperei, mas ela não disse mais nada.

        "Está alguma coisa errada?" Estariam os Newton a passar cheques sem provisão?

        "Não, não." Disse rapidamente, olhando para mim com um estranho brilho nos olhos. Ela parecia estar a reprimir algum tipo de contentamento. Fazia-me lembrar a Jessica quanto tinha algum boato, que estava morta por contar.

       "Queres que te imprima um extracto da tua conta?" Perguntou a Sra. Newton ansiosamente. Não era meu hábito – a minha conta crescia tão lentamente e previsivelmente que não era difícil fazer as contas na minha cabeça. Mas a alteração no tom de voz, deixou-me curiosa. O que estaria no ecrã do computador que a deixou fascinada?

       "Claro."Concordei.

       Ela pressionou uma tecla, e a impressora emitiu um pequeno documento.

       "Aqui tens." Ela retirou o papel com tanta rapidez que rasgou o papel ao meio.

       "Oops, peço imensa desculpa." Ela contornou a secretaria, sem olhar para a minha expressão curiosa, até ela encontrar um rolo de papel. Ela juntou os dois pedaços de papel e confiou-me o documento.

       "Obrigado,"murmurei. Com o papel na mão, virei-me e segui em direcção á porta principal, deitei-lhe um olhar rápido, para ver se conseguia perceber qual era o problema da Sra. Stanley.

        Eu pensei que a minha conta deveria ter cento e cinquenta e trinta e cinco dólares. Estava errada, deveria ter cento e cinquenta e trinta e seis dólares, em vez de trinta e cinco.

        E também, lá estavam mais vinte mil extra.

        Parei onde estava, tentando perceber os números. A conta tinha vinte mil dólares antes, do meu depósito de hoje, que foi adicionado á conta corrente.

        Por um breve momento, ponderei encerrar a minha conta imediatamente. Mas, assentindo de uma vez. Voltei de novo para o balcão onde a Sra. Stanley escrevia com olhos brilhantes e interessados.

        "Deverá existir algum problema com o computador, Sra. Stanley," disse devolvendo-lhe o papel.

"Só deveriam estar na conta cento e cinquenta e trinta e seis dólares."

         Ela riu-se conspiratoriamente. "Eu pensei que parecia um pouco estranho."

        "Nos meus sonhos, claro?" Eu ri de volta, impressionando-me com a normalidade do meu tom de voz.

        Ela teclou rapidamente.

        "Vejo aqui o problema… á três semanas um deposito de vinte mil dólares foi efectuado por…. Hmmm, outro banco, parece. Imaginei que alguém tinha os números errados."

        "Quanto trabalho darei se quiser efectuar um levantamento?"Perguntei.

        Ela sorriu distraidamente, enquanto continuava a teclar.

        "Hmmm," ela disse de novo, franzindo o sobrolho, em três profundas rugas. "Parece que foi uma transferência bancária directa Não temos muitas destas. Sabes que mais? Vou pedir á Sra. Gerandy que dê uma vista de olhos nisto…" A sua voz desvaneceu, enquanto se virava para longe do computador, o seu pescoço esticando-se para olhar através da porta aberta, atrás dela. "Charlotte, estás ocupada?" Ela chamou.

         Não houve uma resposta. A Sra. Stanley levou o comprovativo e caminhou rapidamente, atravessando a porta traseira, onde devia ser o escritório.

        Olhei para ela durante um minuto, mas ela não voltou. Virei-me e olhei vagamente para a rua através das janelas, vendo a chuva escorrer pelo vidro. A chuva escorria em correntes imprevisíveis, ás vezes fazendo estranhos desvios devido ao vento. Não prestei atenção ao tempo, enquanto esperava. Tentei que a minha mente vagueasse á toa, pensando em nada, mas parecia não conseguir voltar aquele estado de semi – consciência.

        Eventualmente, ouvi vozes atrás de mim, outra vez. Virei-me para ver a Sra. Stanley e a esposa do Dr. Gerandy aparecer na sala principal, com o mesmo sorriso educado nas suas caras.

        "Desculpa por isto, Bella," disse a Sra. Gerandy. "Eu devo conseguir esclarecer isto com um telefonema rápido. Podes esperar se quiseres." Ela acenou para um conjunto de cadeiras de madeira, que estavam encostadas á parede. Elas pareciam pertencer a uma mesa de jantar de alguém.

         "Ok." Concordei. Caminhei em direcção ás cadeiras, e sentei sentei-me na do meio, subitamente desejando ter um livro. Não tinha lido nada á algum tempo, fora da escola. E mesmo assim, quando alguma ridícula história de amor fazia parte do currículo, eu fazia batota com sebentas. Era um alívio estar a trabalhar no Animal Farm. Mas tinham de existir outros livros seguros. Thrillers políticos. Mistérios com assassínios. Assassinatos macabros não eram problema; desde que não existisse á primeira vista um enredo romântico.

        Algum tempo depois, fiquei irritada. Estava cansada de olhar para a aborrecida sala cinzenta, sem um quadro para aliviar as paredes brancas. Não podia olhar para a Sra. Stanley enquanto ela remexia os papéis, pausando de vez em quando, para inserir algo no computador – ela olhou para mim uma vez, e quando ela cruzou o meu olhar, ela parecia desconfortável e deixou cai um ficheiro. Podia ouvir a voz, da Sra. Gerandy, um pequeno murmúrio vindo do escritório, mas não era audível o suficiente para eu perceber outra coisa que não fosse, que ela me tinha mentido sobre a duração da chamada. Havia tanto tempo possível para uma pessoa pensar em nada, e se isto não acabasse rápido, eu não o poderia evitar. Eu teria que pensar. Eu entrei em pânico sossegadamente, tentando arranjar um assunto seguro para pensar.

         Fui salva pelo reaparecimento da Sra. Gerandy. Sorri para ela grata, quando ela espreitou pela porta, com os seus cabelos brancos fartos apanhando o meu olhar por um instante.

        "Bella, importas-te de chegar aqui?" ela perguntou, e eu percebi que ainda estava ao telefone.

        "Claro." Respondi enquanto ela desaparecia pela porta.

        A Sra. Stanley teve de desbloquear a semi-porta, no fundo do balcão para me deixar passar. O seu sorriso era vago, e ela nem me olhou nos olhos. Eu tinha a certeza que ela planeava ouvir a conversa.

       A minha mente percorria todas as possibilidades, enquanto eu me apressava até ao escritório. Alguém estava a lavar dinheiro através da minha conta. Quem teria esta quantidade de dinheiro para subornar o Charlie? Talvez o Charlie pertencesse á Máfia, aceitando subornos, e usando a minha conta para lavar o dinheiro. Não, não podia imaginar o Charlie na Máfia. Se calhar, foi o Phil. Apesar de tudo, seria possível que eu não conhecesse assim tão bem o Phil?

      A Sra. Gerandy ainda estava ao telefone, e acenou com o queixo para a cadeira de metal que estava de frente para a secretaria. Ela escrevinhava algo nas costas de um envelope. Sentei-me, questionando –me se Phil teria algum passado obscuro, e se eu iria para a prisão.

      "Muito obrigado, sim. Acho que é tudo. Sim, sim. Muito obrigado pela sua ajuda," a Sra. Gerandy desperdiçou um sorriso, enquanto desligava a chamada. Ela não parecia zangada ou rispida. Mais excitada e confusa, que me lembrava a Sra. Stanley na entrada. Eu imaginei por um segundo, em saltar porta fora e assustá-la.

       Mas a Sra. Gerandy falou.

      "Bem, eu acho que tenho muitas boas notícias para ti… apesar de não imaginar o porquê de ainda não teres sido informada disto." Ela olhou para mim com um olhar critico., como se ela esperasse que eu batesse com a mão na testa e dissesse, oh ESSES vinte mil! Varreram-se completamente da minha cabeça!

       "Boas notícias?" Perguntei. As palavras tinham implícitas que o engano era demasiado complicado para ela o revelar e ela estava sob a impressão que eu estava mais rica do que á uns minutos atrás parecia.

       "Bem, se realmente não sabes… então parabéns! Foste premiada com uma bolsa de estudo da…" ela olhou para os seus rabiscos "Pacific Northwest Trust."

       "Uma bolsa escolar?" Repeti em desconfiança.

       "Sim, não é tão excitante? Meus Deus, vais puder ir para qualquer Universidade que quiseres!"

       E foi naquele preciso momento, enquanto ela falava alegremente sobre a minha sorte, que percebi de onde tinha vindo aquele dinheiro. Apesar do súbito ataque de fúria, suspeita, ultraje, e dor, tentei falar calmamente.

        "Uma bolsa escolar que deposita vinte mil dólares na minha conta," anotei. "Em vez de pagar isso á escola. Sem nenhuma maneira de confirmar que efectivamente, uso esse dinheiro para a escola."

         A minha reacção surpreendeu-a. Pareceu ficar ofendida com as minhas palavras.

         "Seria muito insensato usar o dinheiro, para outro fim que não este, querida Bella. Isto é uma oportunidade única na vida."

        "Claro", disse secamente."E esta Pacific Northwest Trust disse o porquê de me terem escolhido a mim?"

         Ela olhou para as notas novamente, com um ligeiro descontentamento, devido ao meu tom de voz.

         "É muito prestigiante – eles não oferecem uma bolsa escolar como esta todos os anos."

         "Aposto."

          Ela observou-me e desviou o olhar ligeiramente."O banco em Seattle que gere o fundo encaminhou-me para o senhor que administra a atribuição das bolsas escolares. Ele disse que esta bolsa escolar é atribuída com base no mérito, sexo e localização. Está direccionada para raparigas estudantes de cidades pequenas, que não tem oportunidades disponíveis em cidades maiores."

          Parecia que alguém pensou que ele estava a ser engraçado.

          "Mérito?"Perguntei discordando. "Tenho uma média de 3.7. Posso enumerar três raparigas, em Forks, com melhores notas que eu, e uma delas é a Jessica. Além disso – eu nunca me candidatei para essa bolsa."

         Ela agora estava muito confusa,  agarrando na caneta e pousando novamente na secretaria, conservando o pendente que usava entre o polegar e o indicador. Ela observava as notas novamente.   

        "Ele mencionou que…" ela mantinha os olhos no envelope, insegura quanto á minha atitude. "Eles não aceitam candidaturas. Eles pesquisam em candidaturas rejeitadas de bolsas de estudo, e escolhem estudantes que sentem que não foram analisados com justiça. Eles obtiveram o teu nome, através de uma candidatura que fizeste, para ajuda financeira baseada em mérito, para a Universidade de Washington."     

        Senti os cantos da minha boca contraírem-se. Eu não sabia que essa candidatura tinha sido rejeitada. Era algo que tinha preenchido á muito tempo, antes…

        E eu não tinha pensado em outras possibilidades, apesar de me lembrar dos prazos de entrega. Eu não conseguia me concentrar no futuro. Mas a Universidade de Forks era o único sitio que me manteria perto de Charlie e de Forks.

       "Como é que eles tem acesso a essas candidaturas rejeitadas?" Perguntei num tom monocórdico.

       "Não tenho a certeza, minha querida." A Sra.Gerandy não estava contente. E estava á espera de euforia, e só estava a dar hostilidade. Quem me dera saber alguma maneira de puder explicar, que a negatividade não lhe era dirigida. "Mas o administrador deixou o seu número caso eu tivesse alguma dúvida – podias ser tu a contactá-lo. Ele podia assegurar-te que o dinheiro é, realmente para ti. "

        Eu não tinha dúvidas disso. "Gostaria de ter o seu número."

        Ela escreveu gentilmente, num pedaço de papel rasgado. Fiz uma nota mental para, anonimamente doar um conjunto de post-its ao banco.

        O número era de um local distante."Suponho que ele não deixou um endereço de e-mail." Perguntei cepticamente. Não queria aumentar a conta telefónica do Charlie.

        "Para dizer a verdade, até deixou," ela sorriu, contente por ela ter algo que eu parecia querer. Esticou-se através da secretaria, para escrever outra linha no meu pedaço de papel.

        "Obrigado, vou entrar em contacto com ele assim que chegar a casa." Formou-se uma linha direita nos meus lábios.

        "Querida," disse a Sra. Gerandy hesitantemente. "Deverias estar contente com isto. É uma grande oportunidade."

        "Eu não vou aceitar vinte mil dólares que não mereci," respondi, tentando manter um tom de voz sem mostrar o meu ressentimento.

        Ela mordeu o lábio, e baixou o olhar novamente. Ela também pensava que eu era maluca. Bem, eu iria obrigá-la a dizê-lo em voz alta.

        "O quê?" Exigi.

        "Bella…" Ela pausou e eu esperei com os meus dentes cerrados. "É substancialmente mais do vinte mil dólares."

         "Desculpe?" Engasguei-me. "Mais?"

         "De facto, vinte mil dólares é só o pagamento inicial. Daqui em diante iras receber, cinco mil dólares, todos os meses, até terminares os estudos. Se te candidatares ao ensino superior, a bolsa escolar irá continuar a pagar os estudos." Ela ficou excitada enquanto me contava isto.

          De início, não conseguia falar, estava lívida. Cinco mil dólares por mês durante um período ilimitado de tempo. Eu queria destruir alguma coisa.

        "Como?" Consegui perguntar.

        "Não percebo o queres dizer."

        "Como é que vou receber cinco mil dólares por mês?"

        "Será transferido para a tua conta aqui." Ela respondeu, perplexa.

         Houve um pequeno momento de silêncio.

         "Quero encerrar essa conta agora." Disse num tom de voz firme.

          Demorei quinze minutos a convence-la, que estava a falar a sério. Ela tinha um infindável numero de razões sobre o porque de ser uma má ideia. Argumentei fervorosamente, até que me ocorreu que ela estaria preocupada em me dar os vinte mil dólares. Eles têm essa quantia disponível?   

          "Olhe, Sra.Gerardy," acalmei-a." Só quero levantar os meus cento e cinquenta dólares. Eu agradeceria se pudesse transferir o outro dinheiro, para o sitio de onde veio. Irei esclarecer tudo com este - " olhei para o pedaço de papel "Sr.Isaac Randall. É realmente um engano."

          Isto pareceu acalmá-la.

         Vinte minutos mais tarde, com um rolo de cento cinquenta, uma de vinte, uma de dez, uma de cinco, uma de um, e cinquenta cêntimos no meu bolso, sai do banco com um alívio. A Sra.Stanley e a Sra. Gerandy estavam lado a lado ao balcão, olhando para mim com os olhos arregalados.

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Cena dois: naquela mesma noite, depois de comprar as motas e de visitar o Jacob pela primeira vez…

 

       Fechei a porta e tirei o meu fundo escolar do bolso. Parecia muito pequeno enrolado na palma da minha mão. Enfiei-o dentro de uma meia sem par, e coloquei-o no fundo de uma gaveta com roupa interior. Provavelmente, não é o esconderijo mais original, mas iria preocupar-me mais tarde, em arranjar outro sitio mais criativo.

       No meu outro bolso estava o pedaço de papel com o e-mail e o contacto telefónico do Sr. Isaac Randall. Retirei-o e coloquei-o em cima do teclado do meu computador, liguei o computador, batendo com o meu pé enquanto o monitor ganhava vida lentamente.

       Quando estava ligada, abri a minha conta de e-mail grátis. Eu praguejei, enquanto apagava o monte de spam que se acumulou, desde a última vez que escrevi para a Renee. Eventualmente terminei a tarefa e abri a janela para compor um novo e-mail.

        O endereço de e-mail era "irandall", por isso assumi que ia directamente para a pessoa que eu queria.

 

                     Caro Sr.Randall, escrevi.

                     Tenho esperanças que se lembre da conversa que teve com a Sra. Gerandy, esta tarde, no Federal Bank de Forks. O meu nome é Isabella Swan, e aparentemente, o Sr. está com a ideia que eu fui premiada com uma, muito generosa bolsa de estudo, do Pacific Northwest Trust Company.

                   Peço desculpa, mas não posso aceitar esta bolsa. Já pedi que o dinheiro que já recebi, seja transferido para a conta de onde veio, e fechei a minha conta no Federal Bank de Forks. Peço que atribua a bolsa a outra pessoa.

                  Obrigado, I.Swan

 

        Fiz várias tentativas até me soar certo – formal, e ambiguamente final. Reli-o duas vezes, antes de o enviar. Eu não tinha a certeza que tipo de directivas, este Sr. Randall tinha recebido sobre a bolsa escolar fantasma, mas eu não via nenhuma falha, na minha resposta.

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      Quando voltei, agarrei na correspondência enquanto entrava. Olhei por entre as contas e a publicidade, até que vi a carta no topo da pilha.

       Era um envelope formal normal, endereçado a mim – o meu nome escrito á mão, o que era pouco comum. Olhei para o remetente com interesse.

       Interesse, que muito rapidamente, se transformou em náusea. A carta era da Pacific Northwest Trust, Escritório de Atribuição de Bolsas. Não havia qualquer morada, por debaixo do remetente.

       Provavelmente, era um reconhecimento formal da minha recusa, disse a mim própria. Não havia motivo para me sentir nervosa. Nenhum motivo, a não ser pelo pequeno detalhe, que pensando sequer sobre isso, poderia me lançar novamente na terra dos mortos-vivos. Apenas isso.

       Coloquei a restante correspondência na mesa, para o Charlie, reuni os meus livros, da sala de estar, e apressei-me a subir as escadas. Assim que entrei no quarto, tranquei a porta e abri o envelope. Tive de me lembrar para ficar zangada. A fúria era a chave.

 

                       Cara Menina Swan,

                      Permita-me que a congratule formalmente, por ter sido premiada com a prestigiada Bolsa de Estudo J.Nicholls, da Pacific Northwest Trust. Esta bolsa é atribuída com pouca frequência, e devia-se sentir orgulhosa por saber que o Comité de Atribuições, escolheu o seu nome anonimamente, para esta honra.

                     Têm existido algumas pequenas dificuldades, em enviar-lhe o dinheiro da sua bolsa, mas não se preocupe. Encarreguei-me de certificar, que não passe pelo mais pequeno inconveniente, pelo que, lhe envio um cheque no valor de vinte e cinco mil dólares; o pagamento inicial mais a primeira mensalidade.

                     Mais uma vez, a congratulo pelo seu sucesso. Peço que aceite, com os melhores votos de sucesso pelo seu futuro escolar, da toda a Pacific Northwest Trust.

 

                     Sinceramente,

                    I.Randall

 

     A fúria não era um problema.

     Olhei para dentro do envelope e, com toda a certeza, estaria um cheque dentro.

      "Quem era esta gente?" eu rosnei através dos meus dentes cerrados, esmagando a carta, com uma mão, numa bola.

      Dirigi-me furiosamente, ao cesto do lixo, para ir buscar o número de telefone do Sr. I.Randall. Eu não queria saber se era uma chamada de longa distancia – isto ia ser uma chamada muito curta.   

       "Oh, merda," sibilei. O cesto estava vazio. O Charlie tinha despejado o meu lixo.

         Atirei o envelope com o cheque, para a cama, e alisei a carta novamente. Era um papel da empresa, escrito com letras verdes escuras, sobre o topo da carta, Pacific Northwest Trust Departamento de Atribuições, mas não existia qualquer informação, qualquer morada, e qualquer número de telefone.

          " Raios."

          Sentei-me á beira da cama, e tentei pensar claramente. Obviamente, eles iriam ignorar-me. Eu não podia ter expresso a minha vontade mais claramente, pelo que isto não podia ser uma falta de comunicação. Provavelmente não iria fazer qualquer diferença de se eu ligasse.

          Só havia uma coisa a fazer.

          Voltei a esmagar a carta, juntamente com o envelope e o cheque, e desci as escadas.

          O Charlie estava na sala, a ver TV com o som alto.

         Fui ao lava-loiça da cozinha, e atirei as bolas de papel para lá. Depois, vasculhei a nossa gaveta de tralha até encontrar uma caixa de fósforos. Acendi um, e coloquei-o estrategicamente, numa falha do papel. Acendi outro, e fiz o mesmo. Estive quase a acender outro, mas o papel estava a arder fortemente, por isso, não havia necessidade.

         "Bella?" Charlie chamou através do som da TV.

        Liguei a torneira da água rapidamente, com uma sensação de satisfação enquanto a força da água esmagava as chamas numa pequena corrente de cinzas.

         "Sim, Pai?" voltei a colocar os fósforos na gaveta, e fechei-a cuidadosamente.

         "Cheira-te a queimado?"

         "Não, Pai."

         "Hmmm."

         Lavei o lava-loiça, para ter a certeza, que todas as cinzas eram levadas pelo cano abaixo, e liguei o destruidor de lixo para ter a certeza.

         Voltei para o meu quarto, sentindo-me ligeiramente satisfeita. Eles podiam enviar os cheques que quisessem, pensei sem duvidas. Eu podia sempre arranjar mais fósforos, quando acabassem.

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Cena quatro: durante o período em que o Jacob a evita…

 

         No degrau, estava um pacote da FedEx. Apanhei-o cuidadosamente, esperando que o remetente fosse da Florida, mas foi enviado de Seattle. Não existia informação do remetente, no exterior do pacote.

         Estava endereçado a mim e não ao Charlie, por isso, levei-o para a mesa, e rebentei a fita que cruzava o cartão para o abrir.

        Assim que vi o logótipo verde-escuro da Pacific Northwest Trust, senti que a minha gastroenterite estava a voltar. Sentei-me na cadeira mais próxima, sem olhar para a carta, com a fúria a aumentar gradualmente.

        Eu não conseguia convencer-me a lê-la, apesar de não ser muito extensa. Tirei-a do pacote e coloquei-a na mesa, virada para baixo. Olhei de volta para o pacote, hesitantemente, para ver o que estava lá dentro. Era um envelope grande.Tinha medo de o abrir, mas estava furiosa o suficiente, para o rasgar de qualquer maneira.

        A minha boca era uma linha dura enquanto rasgava o papel sem me preocupar em abri-lo pela abertura.  Tinha muito com que me preocupar, neste momento. Não precisava do lembrete ou da irritação.

         Estava em estado de choque, mas não estava surpreendida. O que é que poderia ser senão isto – três molhos de notas, bem presos por largos elásticos de borracha. Eu não precisava olhar para as denominações. Eu sabia exactamente, quanto é que eles estavam a tentar impor-me. Seriam trinta mil dólares.

         Levantei o envelope delicadamente, enquanto me levantava, e virei-me para o deitar no lava-loiça. Os fósforos estavam no topo da gaveta de ninharias, exactamente onde o deixei da última vez. Tirei um e acendi-o. 

       Ardeu perto, cada vez mais perto dos meus dedos, enquanto olhava para aquele envelope odioso. Não conseguia obrigar os meus dedos a larga-lo. Apaguei-o antes que me queimasse, a minha cara torcia-se com um olhar de nojo.

       Tirei a carta da mesa, amarrotei-a numa bola e atirei-a para o outro lava-loiças no balcão. Acendi um outro cigarro, e atirei-o contra o papel, olhando com evidente satisfação enquanto ele queimava. Um aquecimento. Tirei outro fósforo. De novo. Peguei fogo ao envelope. De novo, queimou perto dos meus dedos, antes de o atirar contra as cinzas da carta. Não conseguia convencer-me a queimar trinta mil dólares.

        Então o que é que eu ia fazer com isto? Não tinha uma morada para o devolver – tinha quase a certeza que a empresa não existia.

        Foi então que me ocorreu que eu tinha efectivamente uma morada.

        Coloquei o dinheiro no pacote da FedEx, retirando o logótipo, para o caso de alguém o encontrar, seria impossível de o ligarem a mim, e dirigi-me á minha carrinha, dizendo incoerências durante o caminho. Prometi a mim mesma que iria fazer qualquer coisa irresponsável com a minha mota, esta semana. Eu iria fazer acrobacias se tivesse de ser.

        Detestei cada minuto da viagem, enquanto percorria aquelas árvores sombrias, cerrando os meus dentes, até me doer o queixo. Os pesadelos iam ser intensos esta noite – isto estava a pedi-las. As árvores abriram caminho até aos fetos, e eu atravessei-os furiosamente, deixando, atrás de mim uma linha de fumo do tubo de escape. Parei ao lado dos degraus da frente, desligando o carro.

        A casa parecia a mesma, dolorosamente vazia, morta. Eu sabia que estava a projectar os meus sentimentos, na sua aparência, mas isso não mudava a maneira como ela olhava para mim. Cuidadosamente,tentei não olhar através da janela, caminhei em direcção á porta principal. Desejava desesperadamente, ser uma morta viva, só por um minuto. Mas a anestesia já tinha expirado á muito tempo.

      Pousei o pacote cuidadosamente, no degrau da casa abandonada, e vim – me embora.

      Parei no degrau de cima. Não podia deixar, um monte de dinheiro á porta da casa. Era quase tão mau como queimá-lo.

      Com um suspiro, mantendo os meus olhos no chão, voltei para trás e agarrei o pacote, ofendida. Talvez o pudesse doar anonimamente, a uma boa causa. Uma caridade para pessoas com problemas de sangue, ou algo do género.

       Mas eu já estava a abanar a cabeça enquanto entrava para a carrinha. Era o dinheiro dele, e, que chatice, ele ia ficar com ele. Se fosse roubado do seu alpendre da frente, era problema dele, não meu.

       A minha janela estava aberta, e eu vez de sair, atirei com toda a força que tinha o pacote, contra a porta.

       Nunca tive a melhor pontaria. O pacote bateu com toda a força no vidro da porta, deixando um buraco tão grande que parecia ter sido feito por uma maquina de lavar.

        "Argh, merda!" praguejei em voz alta, cobrindo a minha cara com as mãos.

        Eu deveria saber que não importava o que fazia, eu apenas faria tudo pior.

        Por sorte, contive a  fúria. Isto era não era culpa minha, lembrei-me. Eu só estava a devolver o que era dele. Era problema dele as coisas terem chegado a este ponto. Além disso, O barulho do vidro a partir até foi engraçado – fez-me sentir um bocadinho melhor, no sentido perverso da situação.

        Eu não me consegui convencer, mas liguei a ignição da carrinha e apesar de tudo, fui me embora. Isto era o mais perto que eu conseguia arranjar, quanto a devolver o dinheiro a quem pertencia. Agora eu tinha um sítio conveniente, onde largar a entrega do próximo mês. Era o melhor que eu podia fazer.

         Pensei nisto umas cem vezes antes de chegar a casa. Percorri a lista telefónica á procura de vidreiros, mas não encontrava um estranho a quem pedir ajuda. Como é que eu explicava a morada? Teria o Charlie de me prender por vandalismo?

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Cena cinco: a primeira noite do regresso da Alice, após ter visto a Bella "cometer suicídio"…

            

       "O Jasper não quis vir contigo?"

       "Ele não concorda que eu interfira."

         Eu funguei. "Tu não és a única."

         Ela endireitou-se, e depois relaxou. "Isso tem alguma a ver com o vidro partido da porta da minha casa e com o pacote com notas de milhares de dólares no chão da sala? "

         "Tem," disse zangada. "Desculpa pela janela."

          "Normalmente, é o que acontece quando estas por perto. O que é que ele fez?"

          "Algo chamado Pacific Northwest Trust premiou-me com uma bolsa de estudo muito estranha e persistente. Não era um disfarce muito bom. Quero dizer. Não imagino ele querer que eu saiba, que era ele, mas espero que ele não pense que eu sou assim tão estúpida."

           "Porquê? Aquele batoteiro," murmurou Alice.

            "Exactamente."

            "E ele que me disse para não olhar." Ela abanou a cabeça irritada.

                                                            **********************

 

Cena seis: na noite do regresso de Itália, no quarto de Bella

 

        "Existe uma razão, sobre o porquê do perigo não te puder resistir ser mais do que eu?"

        "O perigo não tenta."

        "Claro que sim, até parece que procuravas activamente por ele. Em que estavas a pensar, Bella? Eu retirei da cabeça do Charlie o número de vezes que já foste parar ás emergências do hospital, recentemente. Já te disse que estou furioso contigo?"

         A sua voz acalmou, parecia mais dorida que furiosa.

         "Porquê? Não tens nada a ver com isso." Disse embaraçada.

         "Na verdade, lembro-me especificamente de tu prometeres que não ias fazer nada perigoso."

          A minha contestação foi pequena. "E tu não prometeste nada acerca de não interferir?"

          "Quando estavas a quebrar a promessa, eu estava a cumprir a minha parte do acordo."

          "Ah, e isto? Três palavras, Edward: Pacific. Northwest. Trust."

         Ele levantou a cabeça para olhar para mim; a sua expressão era toda confusão e inocência – demasiada inocência. Era como assumir a culpa. "Isso é suposto significar alguma coisa para mim?"

          "Isso é insultante," reclamei. "Achas que sou assim tão estúpida?"

          "Não sei do que é que estás a falar," disse, com os olhos arregalados.

           "Como queiras," resmunguei.

 

Cena sete: o fim deste excerto: aquela mesma noite/dia, quando chegaram á casa dos Cullen para o Voto…

 

            De repente, a luz da varanda acendeu, e eu conseguia ver a Esme á porta. O seu cabelo, cor de caramelo estava preso atrás.

            "Está toda a gente em casa?" Perguntei esperançosamente, enquanto subíamos as escadas.

            "Sim, estão." Enquanto falava, as janelas foram abruptamente, preenchidas com luz. Olhei de perto para ver quem tinha dado por nós, mas o tampo espesso e fino de cola cinzenta, numa cadeira em frente, cativou-me o olhar. Olhei para a suave perfeição do vidro, e percebi o que a Esme estava a fazer na varanda com o martelo.

           "Oh, que chatice, Esme! Peço imensa desculpa pela janela! Eu ia …"

           "Não te preocupes com isso," ela interrompeu-me com um gargalhada. "A Alice explicou-me o que aconteceu, e deixa-me dizer-te, eu não teria levado a mal se o tivesses feito de propósito." Ela olhou furiosa para o filho, que estava a olhar para mim.

            Franzi um sobrolho. Ele desviou o olhar e murmurou algo sobre presentes a cavalos.

publicado por Patrícia_TP às 22:48
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